#1
Busco no lusco fusco, fausta fábula ou parábola, na realidade rábula, no fundo, falso, tremendo cadafalso, no dia de todos os dias, na apoteótica execução da sinceridade catastrófica às mãos de um carrasco apaixonado.
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#2
Não percebo o que dizes mas gosto do som.
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#3
A linha da lapizeira desliza sem destino em direcção ao limite da folha. Não falta espaço. Criam-se novos. Encontra-se o que existe. Encontram-se quem resiste aos ventos. Felizes os que nascem para tudo. Para todos. Felizes criaturas da simplificação do momento.
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#4
A folha branca devora-me os olhos na preguiça da sua cor.
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#5
O acto. X-acto. Exacto.
A jacto de facto mais depressa do que penso. Do que sinto. Pressinto. Quem chega. Quem parte. Que parte. Que deixa partido. Repartido. Que me deixa em partes. Pedaços. Bocados de mim. Sortidos. Sórdidos. Sórdidos partidos. Quem parte. Pressinto quem chega. No exacto momento. O acto.
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#6
Gentes de corpos abandonados, deixados ao léu, em camas sem lençóis, em vidas sem sois nem bemóis. Em vidas sem vida, sem ar. Amáveis, prestáveis, irresponsáveis donos da razão, sem dó, só perdão, sem ilusão ou esperança, só tesão. Quem somos nós? Gentes de corpos. Gentes de cama, só fama, só mama. Gentes de dó com pó, do sorriso enferrujado, do olhar mastigado, cansado. Gentes do conceito depenado, do leite derramado. Gentes do fim anunciado. Gentes sem fim.
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#7
Fico numa alma esplanada sentado ao sol de um fim de tarde sem fim. Não dou pelo tempo nem pelas coisas que se movem. Tudo se converteu em nada. Passa-me pelo nariz o teu cheiro no teu pescoço. Ou só a imagem dele. O sal da tua pele espalha-se na língua. Só a imagem dela. Na tua língua, quando se move numa mensagem que compreendo. Gosto de estudar a tua língua. Conhecer o seu sotaque. O teu calão. O sabor das tuas palavras. O sentido das tuas frases. O soluçar quando nervosa como quando me apertas a mão ao entrar no avião. Ou a imagem disso.
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#8
Atirei o cabelo para o lado. Senti-me composto. Lambi o dedo. Senti compota. O aroma bateu-me na língua ao de leve e reflectiu-se no céu da boca. Fez-me salivar. Tu fazes-me salivar. Tanta coisa. Eu fico a ver. Fico a beber. A provar. Calças as sabrinas e desandas. Nem andas. Eu vejo. Sonho que te beijo. Tanto desejo. Tanto tesão, quando berras, tira-me a mão. Tu consentes. Por vezes róis-me entredentes. Nunca me oponho aos teus sentimentos. Nunca me ponho. Estou. Não pretendo ser nada. É um sonho que tenho. Guardei-o como te guardo a ti. Numa gaveta, num momento, num fechar dos meus olhos cansados. Num rebanho de irrequietos rudimentos que me fazem andar. Sorris. Vejo-te os dentes. Mordes o lábios. Doeu. Os teus olhos brilham. Só um segundo. Saio.
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#9
O sol nunca se põe para ti. Tu. Eu. Quem? O meu carro avança, soturno, numa rua engarrafada, mas só no sentido contrário. Procuro-te por trás de um guiador. Em frente de uma montra. Num passeio cheio de gente. O sol de frente não me deixa encontrar-te. Tenho pó no vidro. Tenho pó na alma. O meu desejo por ti fez-se pó e espalhou-se no ar. Agora posso respira-lo.
Paro numa passadeira. Cedo passagem. Cedo me sorriem. Desejam-me sorte. Tudo temo. Deixo-me desfalecer em pensamentos. Baixo o volume para me ouvir, para me ver.
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#10
Pouso o dedo na água. Pouso o dedo no muito quente. Acorda-me o cérebro ultimamente dormente. Abro a água fria. Quero entrar na banheira. O corpo nu arrepia-se. A temperatura desce ao ponto, no qual, já a muita mentalização consigo aguentar.
O copo de vinho pousado na beira, cabeceira ao lado do cinzeiro esperam o momento. A pausa. O descanso. O divagar errante da cabeça por céus, espaços escolhidos ao acaso. Grandes correntes em pequenos riachos que correm aos cachos sobre a minha cabeça. Deixados crescer ou abandonados à nascença. A natureza das coisas é respeitada por olhos entusiasmados. Uma criança de curiosidade quase cruel na aceitação. Pousam flamingos azuis no meu lado caústico. Águas calmas. Baixas. À flor da pele. Para depois renascer. Levantam gaivotas do meu triste amar. Agitado cinza de chuva. Um aperto triste de dor e repulsa que teima em não descer no esófago. Abaixo paira uma calma agitada, um vazio. Sobrevoam falcões dourados o meu ar vingativo. Abandonados à nascença. Esvoaçam pardais transparentes nos meus campos de calma. Fecho os olhos num pedido de desculpa. Bebo vinho para me conseguir engolir. Fumo um cigarro para me consumir, para acabar depressa. Peço desculpa novamente. Sou um reincidente. Um fã do acidente. Motivo para a vida. Objecto do acaso. Da ordem total na total ausência de ordem. Vejam só a coisa linda que deu.
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#11
Sinto a tua falta. Não sei se egoísta. Não sei se carente. Não sei. Carente sim. Dormente sim. Com fome do teu cheiro quente, das tuas costas atrás das quais me agacho e me proteges enquanto te guardo. Velo pelo teu sono. À vela pelos teus sonhos. Num abraço silencioso, quase gritante. Mas não, não asssustas os pássaros. Eu fico aqui. Quieto. Sinto coisas que nunca te consigo dizer. Não te consigo fazer ouvir algo que tão pouco sei dizer. Nunca me ouves até ao fim. Queres estar só. Digo-te o que não sinto mas devia. Digo-te que respeito. Mas, não é isso o que eu quero. Será que queres mesmo? Queres que te contrarie?
Aquela manhã que saimos de uma noite. Abraçados. Sem te conhecer. Naquela rua quase vazia. Não pensei em respeito.
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#12
As cores tomaram o lugar às dores.
Se fores não voltarás.
Nunca mas, só ás vezes , olhes para trás.
No fundo, o passado já jaz.
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#13
Não consigo gritar riscos violentos de caneta. Só consigo chorar palavras cinzentas, daquelas, dias de chuva. Para quê? Não me parece haver motivo para isso mas, na realidade, a caneta não pára.
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#14
Um bando, o bando das minhas células, meus átomos movem-se em direcções que, por difícil que pareça, todas diferentes. Desintegro-me mas, não sem antes acrescentar que, nenhuma, nunca se voltou a encontrar.
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#15
A manhã cai sobre mim chateada por mais uma noite que não dormi. Não consegui. A garrafa de gin rendeu-se por volta das quatro da madrugada. Duas horas depois já o copo se chamava cinzeiro e o cheiro do teu tecido ainda não me sai do nariz. Tenho o nariz entupido, obstruído, impedido de cheirar outras coisas que não tu. Não sei onde estás. O que é feito de ti. Tantas noites, como esta, te encontro sem te procurar. Esforço-me para te perder e nunca te recuperar. Estás bem onde não sei. Continua aí, no teu tempo. No teu espaço afastado de mim onde o teu cheiro não chega ao meu nariz. Onde eu não chego mesmo quando me estico. A minha cama vazia sem mim, que durmo no sofá, por medo de te encontrar lá. Respira de alívio. Foge. Não olhes para trás. Vai. Leva esse odor que já me foi sinónimo de amor e agora não passa de fantasma irritante, relutante em me deixar.
Ando na vida de andaime em andaime, sem capacete, à procura de uma queda fatal daquelas que nem doi. Nem ai, nem vem. Perdi-me.
Acordei outra vez na banheira, cheia, fria. A pele deu de si enquanto não dei nada a ninguém. A cabeça rebate como se fosse domingo. Sao doze horas. Dozes horas que de nada servem. Tudo o que poderia fazer demora mais do que isso. Demora muito mais que isso. Por isso não faço. Quanto tempo tenho, perguntei ao médico. Tem tempo para ir tomar um café, disse ele sorrindo por saber que estou canceroso. Retribuí o sorriso enquanto posso e aproveitei para ir tomar o dito café. O fígado já não dá para comer mas ainda aguenta o café. Com cebolada ainda passa disse o meu médico a sorrir, sabendo que estou canceroso. É provavel que seja o médico mais sincero que conheço. Nunca sorri quando me apresenta a interminável conta de um cancro no fígado. Fica caro ter um cancro, diz-me ele a sorrir, sabendo que estou canceroso. Depois de pagar. Sinceridade misericordiosa, bem humorada. Fruto de uma bem disposta conta bancária e de uma boa relação com o cancro. Este ser, mesmo sem conhecer, não cora em frente ao meu fígado nu decorado de fibromas. Doi-lhe? Pergunta-me ele a sorrir. A sua mulher deixou de vir, é pena, diz-me ele a sorrir sabendo que estou canceroso. Doi-me o peito. Doi-me também o abdómen. Sim mas isso é o que resta do teu figado. O peito não é o cancro é a minha mulher. Não se relaciona bem com o meu cancro. Disse: sou eu ou o cancro? Dispensei-a. Espero que sejas saudável sabendo que estou canceroso.
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#16
Procuro um papel amarrotado onde escreveste o teu número pois sei que está na minha cabeça mas não sei onde. Talvez no armário sem portas que K… me ofereceu para guardar o nosso amor. Sempre o chamei de caixão.
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