Quero colar-te nas paredes do meu cérebro. Enchê-las de ti. Para te esquecer. Para estares tão aqui que já nao te vejo. Já não te sinto. Volto a sentir-me. A sentir. A ser. Ver. Conseguir fazer. O que as pessoas fazem. Viver. Há as que morrem mas não falo dessas. Interessam-me as vivas. O que fazem vivas. Aqui. Agora. Já. Jazes. Repleta de flores. Coberta de cores. Para lá do visível. No invisível. No que não vejo. No que não quero ver. No que os meus olhos recusam. Não os forço. Nunca forço. Indicio. Atiro no ar um desejo que nunca deixa de ser só meu. Que não leva a mal a incompreensão. Que não faz mal. Que não faz nada. Que é só isso. Que sou só eu.
O carro não pega. Buzinam na mala. O sangue corre para a cara. Que vergonha. O carro não pega. Que faço? O telemóvel não tem saldo. O sol está a pique. Caralho. O carro não pega. Uma fila de gente chateada atrás de mim. Com razão. Não que eu tenha culpa. Não tive mão na questão. Do outro lado também ja vejo uma fila. Têm que passar por algum lado. Ao meu lado. A olhar. Eu… Eu deixei de ouvir som. Tudo se move demoradamente. Linearmente. Putos com caras estranhas colados em vidros de carros com caras estranhas a olhar para mim. Isto não foi uma repetição. Tudo tem cara. Menos eu. Melhor. Já tive. Neste momento não. Derreteu-se. Evaporou-se. Sinto que neste momento eu não existo. Retirei-me de cena para um lugar onde o carro não pega mas não está estrada nenhuma interrompida. Onde as crianças não tem caras estranhas. Onde eu não sou dono do carro. Onde eu estou lá fora. A ver. Sentado num muro com heras. E aí apareces tu. Conto-te o que se passa. O carro não pega. Salto do muro. Ofereço-te uma folha de hera. Caminhamos embora. Eu conto-te que não vi direito como o carro bateu naquela pessoa. Eu ia a andar. Estava sol. Não consegui ver o que aconteceu.